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O cotidiano jurídico com muito bom humor

Por Paulo Gustavo Sampaio Andrade, advogado.

Outros recursos

20/07/2008 às 11h25min Paulo Gustavocrônicas e poesias

Texto literário de ficção acerca do cotidiano jurídico.

Por Fábio de Oliveira Ribeiro, advogado em Osasco (SP).

O estagiário trabalhava havia apenas dois meses no escritório e estava impressionado. Realmente dera sorte de ter sido contratado por um advogado tão bem sucedido. Quem diria, dentre tantos candidatos, selecionarem justamente ele… Acreditava que, se se esforçasse, poderia até chegar a ser um dos advogados da casa. Quando surgisse uma oportunidade, mostraria todo seu valor.

Não demorou muito para que uma chance inigualável se apresentasse. Dentre vários clientes importantes espalhados pelo Brasil, o escritório cuidava dos interesses de um Prefeito que havia se tornado notável em razão da corrupção. Nada de incomum. Algumas concorrências fraudulentas aqui, outras despesas injustificadas ali, cobrança de comissão acolá… tudo dentro do receituário político nacional. A questão é que a coisa tomou corpo depois que a denúncia feita pela oposição na Câmara dos Vereadores foi endossada pela sua amante. Como uma bola de neve, a coisa cresceu tanto que acabou resultando em processo de impedimento, que os jornais, por adorarem estrangeirismos, chamavam de impeachment. A condenação do Prefeito já era dada como certa pela maioria dos analistas políticos da imprensa.

O caso é que faltavam apenas vinte dias para o processo ser julgado perante a Câmara dos Vereadores e a defesa oral ainda não estava pronta. O todo poderoso dono do escritório rumara para Brasília. Os dois outros advogados designados para o caso nem leram o dossiê para preparar a defesa que seria levada a plenário. Limitavam-se a ficar o dia inteiro pendurados no telefone. Fernando não conseguia saber do quê e com quem tratavam. Mesmo assim não acreditava como o imponente escritório desdenhava um caso tão importante.

Uspiano em virtude do excelente preparo intelectual e uspintudo por curiosidade, Fernando havia acompanhado todos os detalhes do processo de impedimento do Collor. Consumira, na época, horas e horas lendo sobre a matéria, de maneira que se achava mais do que preparado para ousar. Imaginou que, se fizesse um esboço da defesa e o apresentasse ao big boss, marcaria um ponto.

Como tinha certa liberdade, tratou de tirar uma cópia do volumoso dossiê, que começou a ler no dia seguinte. Para ter tempo para dedicar-se à leitura, tratou de tirar uma semana de férias da Faculdade, pedindo a um colega que registrasse sua presença. Oito dias depois, já acabara de ler o dossiê e começava a alinhavar a defesa. Encontrou vários vícios que poderiam ser explorados não só em plenário mas posteriormente, caso a Câmara não apreciasse as questões prejudiciais ou as rejeitasse. Selecionou a bibliografia necessária para fundamentar suas teses e tratou de começar a redigir. Parte do trabalho fez em casa, parte no trabalho. Através de uma pesquisa na internet, teve acesso ao texto integral do caso Collor, selecionando alguns fragmentos da alentada defesa que foi feita pelos seus advogados.

Uma semana antes do julgamento, já tinha pronta e revisada uma respeitável defesa, em que se dava até mesmo a alguns preciosismos – como, por exemplo, a citação acerca da origem do impeachment na Inglaterra de Eduardo I, como uma forma de minimizar os conflitos entre um Rei irresponsável e o Parlamento através da condenação dos Ministros da Coroa. Deixou-a na mesa do dono do escritório e aguardou ansiosamente o desenlace de seu plano.

Três dias antes do julgamento, o todo poderoso advogado retornou de Brasília. Rapidamente descobriu que, enquanto tratava do caso com os líderes nacionais dos maiores Partidos Políticos, seus dois assistentes cumpriram fielmente a missão que lhes havia sido conferida de ameaçar os vereadores da oposição, premiar os da situação e seduzir com promessas e concessões (públicas) os vacilantes. Já dava o caso por resolvido quando viu a defesa sobre sua mesa. Primeiro, deu pouca atenção para a peça; depois, presa da curiosidade, folheou-a.

– Muito beeeeemmmmmm. – exclamou ao ler com atenção algumas passagens, assinou-a, fez algumas ligações e chamou o estagiário cujo nome estava aposto após o seu.

Fernando tremia ao entrar, mas logo ficou à vontade. Afinal, o patrão levantou-se e veio até ele para conduzi-lo a uma das cadeiras em frente à sua mesa. Ele não só havia ficado satisfeito, como premiou generosamente o estagiário, aumentando seu salário e convidando-o para acompanhá-lo no dia do julgamento, dizendo apenas:

– Sua defesa está excelente. Usaremos ela, mas tenho certeza de que o caso será resolvido através de outros recursos.

No dia do julgamento, o estagiário conheceu o triunfo. O big boss em pessoa sustentou oralmente a defesa que ele alinhavou e ainda agradeceu en passant sua ajuda da Tribuna. A decisão foi secreta e o resultado colheu todos de surpresa. Baseando-se num dos aspectos levantados pelo advogado, o processo todo de impedimento foi anulado e o caso arquivado. No caminho para o escritório, o advogado sorrindo disse ao estagiário.

– Não disse que o caso seria resolvido através de outros recursos?…

Este artigo já recebeu 11 Comentários

  1. Tudo bem, o que ocorreu? a corrupção de sempre? e esse texto aprecia a essa ?

  2. Ok, me prendi a esta redação, e com tanta impropriedade fiquei a deriva de um fim tão vago, descompromissado e sem a devida competência para com o resto da obra.
    É a 1ª vez que venho a ler tais textos e este me fez crer que não só é perda de tempo, como nunca será dado como um preciosismos jurídico.

  3. A crônica de nosso colaborador realmente não foi feita para dobrar gargalhadas, mas para criticar os costumes de forma sutil.
    Henrique e Romulo, ainda que esta não tenha lhes agradado, confiram outros textos do blog.

  4. A crônica é boa. Senso crítico apurado. Quem bem leu, bem entendeu… Pode até ter ganhado a causa por “debaixo dos panos”, mas no certo, a defesa fundamentada também atingiria o resultado. Tanto é que atingiu. PREFIRO ACREDITAR QUE A VITÓRIA DA DEFESA SE DEU PELAS BOAS RAZÕES DA DEFESA ENCONTRADA! Assim, prefiro.

  5. A leitura do texto é ótima, só faltou um final condizente. Ficou vago e sem moral da história!!!
    Vai ter parte II ?

  6. Lendo os comentários dos colegas, acho que estão repletos de razão quando dissertam o não entendimento do texto no que tange a defesa em que o advogado se paltara. Gostaria que fosse melhor elucidado, e se neste caso poderia haver alguma semelhança em relação ao Rei EduardoI. Obrigado!

  7. Vago??

    Este é o final que presenciamos todos os dias em todos os incontáveis casos de corrupção do nosso país. Excelente crônica, retrata perfeitamente a euforia apaixonada daquele que tem contato com a teoria e ao mesmo tempo a frustração avassaldora de ter contato com a prática.
    Final condizente é o que precisamos na realidade. Se os caros colegas não conseguiram entender a grande “artemanha” da defesa do advogado talvez estejam as avessas da nossa realidade política-social.

    Se acharam o final vago e não condizente, sugiro que apresentem dentre tantos casos atuais de corrupção algum que tenha sido.

  8. A grande moral da história a imoralidade política.

  9. Caríssimos, creio que a observação do “Big Boss” em relação à resolução do caso se dar através de outros recursos refere-se que ele imaginava que resolveria com a corrupção de sempre, mas com o surgimento de uma defesa impecável, a mesma foi considerada “outros recursos”, ou seja, diferente do que estão acostumados a fazer. Hahahaha, deveras engraçado.
    Demais.

  10. Fiquei muito decepcionado… depois de me deleitar com um desenrolar fabuloso, um final pífio!!! Pôxa!! Se eu soubesse que ia ser apenas uma “lição de moral” não terialido… Fugiu à idéia original da página!!!

  11. Aos que ficaram inconformados com a falta do “outro lado” da crônica acima, há uma crônica do mesmo autor que pode explicar os bastidores de casos assim. Leia aqui.

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