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O cotidiano jurídico com muito bom humor

Por Paulo Gustavo Sampaio Andrade, advogado.

A borboleta

26/07/2008 às 9h19min Paulo Gustavocrônicas e poesias

Texto literário de ficção acerca do cotidiano jurídico.

Por Fábio de Oliveira Ribeiro, advogado em Osasco (SP).

O advogado do réu fervia de raiva. Sabia qual seria a decisão, mas tinha que ficar quieto. Ainda não era o momento de interferir. Sabia que era necessário respeitar a ordem das coisas para tirar o maior proveito delas. Ao seu lado, o réu, bestificado, nem tentava entender o que estava acontecendo. Ficara fascinado pela borboleta entre as pernas da estagiária do advogado do autor, sentada de frente para a mesa de audiências. Teria feito aquilo de propósito? Se queria chamar atenção, tinha mesmo conseguido. Nem mesmo o Juiz deixava de examinar criteriosamente o espetáculo entre uma espetada e outra no cáustico causídico que defendia o réu, cujos olhos inflamados pela ira não viam nada mais além do desejo de vingança.

A audiência estava quase acabando. A fim de evitar maiores problemas, o Juiz resolveu chamar o processo à conclusão para não ter que suportar o desconforto de mandar constar na ata o agravo que o advogado do réu certamente ia interpor. Que fizesse isto por petição. Enquanto ditava a ata para a escrevente, o advogado do autor despertou de sua sonolência e interrompeu-o:

– Como? Vossa Excelência não vai decidir o pedido de liminar hoje mesmo?

– Vou, doutor. No final da tarde, o senhor poderá ter acesso aos autos no Cartório e saberá qual foi minha decisão.

– Mas por que postergar o inevitável, Excelência?… – disse em tom irônico o ex adverso.

– O senhor está mesmo querendo criar confusão, não é, doutor? Desde o início da audiência, fez de tudo para tumultuar o andamento dos trabalhos!

– Estava apenas fazendo meu trabalho. Tentava evitar que Vossa Excelência desse uma decisão fundamentada menos na apreciação livre da causa do que na vontade de beneficiar uma das partes em detrimento da outra. Aliás…

A estagiária descruza cinematograficamente as pernas e cruza-as novamente, atraindo toda a atenção do magistrado e do réu. Enquanto sua borboleta enche a sala de audiência de frescor com seu vôo silencioso e solitário, o causídico continua a falar sem se dar conta que não é sequer escutado. Ao acabar seu longo arrazoado, com o qual pretendia confrontar o Juiz, este apenas levantou-se, cumprimentou a estagiária e disse:

– É, doutor. É muito bom quando o advogado sabe advogar.

– É melhor ainda quando o Juiz sabe judicar.

– Pois é. Afrontando o magistrado, o senhor nunca vai conseguir o que pretende, doutor – dando uma piscada para a estagiária.

– Na minha profissão, não devo ter medo de desafiar qualquer autoridade, enquanto na sua o senhor deve sempre procurar decidir sem se deixar influenciar…

– Sei, sei. Até logo, doutores. Doutora…

É fato que o Juiz concedeu a liminar, o advogado agravou e ele reconsiderou sua decisão, esvaziando o agravo. Não creio que tenha sido especialmente influenciado pela borboleta da estagiária, pela irritação do causídico do réu ou pelo especial interesse em beneficiar o autor. Talvez estivesse sinceramente convencido de que devia dar aquela liminar e a deu, arrependendo-se posteriormente. Mas isto não importa. Neste caso o que chamou mesmo a atenção não foi o zelo profissional do advogado do réu, mas a borboleta da estagiária do autor. O que prova que a ética é o caminho mais curto para a fatalidade e o mais longo para a felicidade. Infelizmente o advogado conseguiu o que pretendia sem desfrutar o que poderia.

Este artigo já recebeu 1 Comentário

  1. gostei MuIto MaIs AcHeI qUe dEvErIa SeR mAiS cRiAtIvO!!!

    by:CrOnIsTTa PrOfIsSiOnAl

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