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O cotidiano jurídico com muito bom humor

Por Paulo Gustavo Sampaio Andrade, advogado.

Palavras que voam

18/11/2008 às 18h58min Paulo Gustavocrônicas e poesias

Por Gerivaldo Alves Neiva, Juiz de Direito da Comarca de Conceição do Coité (BA).

Tive um amigo Juiz que morreu de câncer no cérebro. Nunca vou me esquecer do nome científico da coisa: glioblastoma multiforme. Este nome parece mesmo com tumor no cérebro. Nome forte. Nome parecido com a coisa. Não me lembro de nada igual.

Este meu amigo gostava muito de nomes, palavras, poesias e música. Foi ele quem me apresentou o concerto para piano nº 1 de Brahms. Em contrapartida, eu lhe apresentei o “trenzinho caipira” de Villa-Lobos. Ríamos muito. Tomávamos muitas cervejas, conversávamos bobagens, apelidava as pessoas, diversão pura e simples… Uma vez, levamos horas para definir o que seria uma pessoa “espaçosa”. Depois de muita conversa, chegamos à conclusão que ser “espaçosa” é um estado de espírito. Então, uma pessoa pode ser extremamente magra e abundantemente “espaçosa”.

Tínhamos apenas uma divergência: ele era torcedor do Bahia e eu do Vitória, mas não brigávamos por isso. Muitos anos antes do seu câncer, ele disse que gostaria de me dar de presente algo muito especial, que era guardado com muito carinho. Insisti que não poderia receber algo assim, mas ele retrucou dizendo que era exatamente por isso que estava me dando de presente. Depois de me convencer, ele foi ao quarto e retornou com uma camisa do Bahia daquelas que tem listas brancas mais finas e as vermelhas e azuis mais largas, sem publicidade, número dez nas costas e de um tipo de malha que não se fabrica mais. Apenas uma estrela sobre o escudo, representando a conquista da Taça Brasil de 1959. Eu, torcedor do vitória, não quis nem pegar na camisa, mas ele não me deu alternativa. Guardo esta camisa há muitos anos e ainda hoje dei uma olhada nela em meu guarda-roupa. Às vezes penso em mandar para um de seus filhos, mas acho que ele queria que ficasse comigo mesmo.

Outro dia, depois de algumas cervejas, ele apanhou um livro de poesias de Pablo Neruda na estante e me desafiou: “leia esta poesia com concentração total e sinta a força desses versos; depois, deixe o livro aberto sobre a mesa e veja as palavras saindo do livro, viajando no ambiente da sala e impregnando as paredes de poesia…” Fiz tudo direitinho e juro que vi! Verdade!

Passado o transe, de forma bem solene, ele me disse: “quando você gostar muito do trecho de determinado livro, deixe-o sempre aberto naquela página e em um local onde as palavras possam impregnar seu ambiente.”

Tive saudade dele estes dias e me lembrei das palavras saindo do livro e impregnando paredes de poesia… Como não tinha um livro de poesias ao alcance, pensei em fazer a experiência com a Constituição Brasileira, que está sempre por perto de mim. Utilizando os recursos da informática, abri a Constituição no Word e usei a ferramenta “localizar” para buscar palavras que tivessem força para depois vê-las voando da página aberta da Constituição. Busquei por amor, abraço, amigo, amizade, beijo, beleza, carinho, dedicação, gostar, música, paixão, poesia, saudade etc.

De todas, só encontrei amor em amortização no artigo 234. Que decepção!

Por que estas palavras não estão na constituição? Será que não pode?

Sei que não pode: lei é lei e poesia é poesia! Basta!

Mas são palavras tão fortes, voariam tão bonito, impregnariam tão bem as paredes dos gabinetes, fóruns e tribunais…

Outro dia vou fazer a mesma experiência com outras Leis. Quem sabe, encontro uma Lei para deixar sempre aberta, ao lado de Mário Quintana, na mesa do meu gabinete, misturando lei com poesia: “Todos estes que aí estão, atravancando o meu caminho, eles passarão… Eu passarinho!”

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