Valor da calça: 67 milhões de dólares
26/05/2008 às 0h13min | Paulo Gustavo | advogados
Pouco tempo depois de assumir o cargo de juiz administrativo em Washington (Estados Unidos), em maio de 2005, Roy L. Pearson Jr. deixou algumas roupas sujas numa pequena lavanderia da vizinhança que costumava freqüentar, de propriedade de uma família de imigrantes sul-coreanos.
Ao receber as roupas lavadas, percebeu que uma de suas calças havia se extraviado. Dias depois, a lavanderia o chamou para entregar a peça faltante, mas Pearson a recusou, alegando que não era a mesma calça, pois a dele não teria bainha.
Pearson então resolveu processar a empresa, alegando que ela teria descumprido a obrigação de “satisfação garantida”, assegurada por uma placa afixada na loja.
Cobrou uma indenização de US$ 67.292.000,00. Isso mesmo: mais de 67 milhões de dólares por uma calça, que nada tinha de especial!
- O valor inicial tomou por base uma interpretação da lei local de defesa do consumidor, segundo a qual a empresa teria que pagar uma multa diária de US$ 1.500,00 por cada violação. Então, multiplicou essa quantia por 12 violações, por 1.200 dias e pelos 3 sócios da empresa, encontrando US$ 64.800.000,00.
- Em seguida, acrescentou uma indenização por danos emocionais (”sofrimento mental, inconveniência e desconforto”), que também multiplicou pelos 3 réus, até chegar ao valor de US$ 1.500.000,00.
- Somou ainda 1.300 horas de honorários advocatícios, que atingiram o montante de US$ 542.500,00. Detalhe: o advogado era ele mesmo.
- O total requerido a título de indenizações punitivas chegou a US$ 400.000,00.
- Pearson ainda requereu uma quantia equivalente a uma diária de aluguel de carro por semana, durante 10 anos, a fim de que pudesse se deslocar até outra lavanderia. Segundo o advogado da lavanderia, “Pearson acha que tem direito a uma lavanderia a menos de quatro quarteirões de sua casa”. O valor encontrado foi multiplicado pelos 3 sócios, atingindo US$ 45.000,00.
- Por fim, o autor da ação requereu o valor equivalente a uma calça nova, estimado no montante nada convencional de US$ 1.450,00. Novamente, multiplicou esse valor pelo total de 3 sócios, e encontrou US$ 4.350,00. Mas esse valor acabou sendo desconsiderado para a indenização requerida. É que, no fim das contas, o autor adotou outro critério ligeiramente mais favorável para chegar a um valor mais alto. Afinal, por que brigar por causa de uma calça? Arbitrou, então, o valor de US$ 4.500,00 como indenização compensatória pela fraude que teria sofrido.
O valor pleiteado foi depois reduzido para “apenas” US$ 54 milhões.
Perante o júri, em junho de 2007, Pearson derramou-se em lágrimas ao descrever a profunda tristeza sofrida pela perda da calça. A lavanderia alegou que Pearson estaria usando a ação para se recuperar financeiramente de um processo de divórcio.

Pearson - de calças, no primeiro plano - faz suas alegações perante a juíza e os donos da lavanderia.
Além da calça, Pearson perdeu a causa. Não recebeu nem o dinheiro nem a roupa, e ainda foi condenado a ressarcir as despesas processuais da lavanderia.
O autor da ação também acabou perdendo o emprego. Seu mandato como juiz administrativo não foi renovado, porque uma comissão entendeu que o temperamento de Pearson não seria adequado para o cargo. Em maio de 2008, ele entrou com outra ação, agora contra o seu ex-empregador, pedindo a sua reintegração ao serviço e mais 1 milhão de dólares como indenização. Esta nova ação, assim como o recurso que Pearson interpôs na ação original, encontra-se pendente de julgamento.
Pelo menos, Pearson ganhou algo: o primeiro lugar na competição fictícia The True Stella Awards de 2007, que escolhe os casos judiciais mais bizarros dos Estados Unidos a cada ano.
Imagine só se Pearson tivesse esquecido alguma nota de dólar no bolso da calça extraviada. Os donos da lavanderia estariam sendo também processados criminalmente por lavagem de dinheiro.
Atualização (em 27/05/2008): nenhuma relação com o filme O Terno de Dois Bilhões de Dólares, com Jackie Chan (que, por sinal, não é coreano, mas honconguês).
(Com informações de: Terra, Wikipedia, Victims of Law e Planck’s Constant. Imagem: Dana Verkouteren – Associated Press)





